Recital especial em celebração ao bicentenário de Clara Schumann

Dando voz a compositoras e musicistas: Celebração do bicentenário de Clara Schumann

Na sexta-feira, dia 22 de novembro, às 19h, a Escola de Música da UFRN celebra uma das maiores compositoras e musicistas da história, Clara Schumann, que completou 200 anos de nascimento em 2019. Cinco musicistas e uma musicóloga reúnem-se para apresentar este recital especial, que terá um repertório variado, com seus Seis Lieder Op. 13 (para soprano e piano), seus Romances Op. 22 (para flauta e piano) e seu Trio em sol menor Op. 17 (para violino, violoncelo e piano).


Parte da tradicional Semana da Música e organizado pela educadora musical e pianista Nan Qi, professora da Escola de Música da UFRN, o recital conta com a participação da violinista Elisa Fukuda (Faculdade Cantareira), da soprano Elke Riedel (UFRN), da flautista Felícia Coelho (UFPE), da violoncelista María Bellorín (UFRN) e da musicóloga Roe-Min Kok (McGill University, Canadá), a qual apresentará uma breve palestra pré-concerto sobre a compositora e suas peças. Este recital é o primeiro de uma série de recitais dedicados a compositoras, que será continuada em 2020.

Saiba mais sobre Clara Schumann

Uma pioneira em sua vida, a trajetória pessoal de Clara revela, todavia, alguns paradoxos. Educada na música por seu pai, um renomado pedagogo do piano, ela se apaixonaria e se casaria com Robert Schumann, outro pupilo de seu pai, à revelia deste, que tentou de toda maneira impedir que este casamento se concretizasse. Rebelando-se contra a influência paterna e tornando-se uma das maiores pianistas do século XIX, Clara quebrou vários paradigmas da sociedade de sua época – fazendo várias turnês profissionais pela Europa inteira, por exemplo, enquanto seus filhos (que viriam a ser oito ao todo) ficavam em casa, inclusive no período em que seu esposo passou a ter sérios problemas psíquicos e precisou ser internado e também nos meses logo após seu falecimento.

Quando Robert e Clara se casaram, tinham a princípio a ideia de que seriam um casal de compositores, porém Clara depois deixaria contaminar-se pelas atitudes negativas da sociedade do século XIX em relação à criatividade feminina, deixando seus dons criativos definharem. No início de sua carreira, ela tinha composto obras para agradar a seu pai, porque todos os virtuoses da época faziam isso. Nos anos que se seguiram ao seu casamento, quando já não era mais essencial que pianistas incluíssem obras originais nos seus programas, o deleite de seu marido pelas suas realizações criativas deu-lhe uma razão para continuar, mesmo que esporadicamente. Depois da morte deste, porém, quando ela tinha apenas 30 anos de idade, ela passou a dedicar-se integralmente à promoção da música de Robert em seus concertos e ao apoio à sua família, não continuando suas atividades como compositora.

Anna Beer, autora do livro “Sounds and Sweet Airs: The Forgotten Women of Classical Music” [Sons e Canções Doces: As Mulheses Esquecidas da Música Clássica], descreve como a vida de Clara parece nesse ponto representar o amor altruísta e dedicado que era esperado de uma figura feminina no século XIX, o qual deixava pouco espaço para o ego impulsionador que era esperado de um compositor. "Olhando para as cartas, os diários e os arquivos de Clara, você simplesmente vê esse atrito", ela explica. "Você vê, toda semana, a diminuição de Clara Schumann como uma pessoa criativa, e um tipo de opressão sutil acontecendo, tanto domesticamente como fora de casa. O casamento começou com grandes ideais de ambos os lados – que ambos seriam compositores juntos", continua Beer. "Mas você tenta ter dois pianos na mesma casa. Você tenta ter um filho a cada ano e ainda manter duas carreiras. Nós ainda não estamos fazendo isso muito bem no século XXI. Não é de admirar que não tenha funcionado em Leipzig no início do século XIX". A autora comenta como Clara Schumann, como pianista, foi fundamental para cimentar a tradição alemã de Bach e Beethoven, trazendo as obras de seu marido para juntarem-se a esse panteão, sendo que uma das grandes ironias da vida de Clara Schumann é justamente que ela ajudou a fortalecer uma tradição que a excluiria como compositora.

Entre as obras apresentadas neste recital, o Trio de Clara Schumann foi escrito no verão de 1846, em um período difícil de sua vida. Ela tinha acabado de se mudar de Leipzig para Dresden, em parte porque Robert sofrera seu primeiro colapso mental grave desde o casamento deles. Tinha três filhos pequenos e estava grávida de seu quarto filho, cujo nascimento seria apenas 11 meses após o nascimento do bebê anterior, não tivesse ela sofrido um aborto espontâneo antes disso. No meio de todo esse drama, ela encontra vazão para suas emoções na criação deste Trio, de grande beleza e expressividade. 
 
O conhecimento da história de Clara certamente permite a criação de maiores ressonâncias entre sua música e o público do século XXI, ao mesmo tempo em que podemos apreciar como ela era bem avançada para sua época, em um recital criado em colaboração com cinco musicistas e uma musicóloga, cada qual trazendo suas próprias histórias e identidades para estabelecer um diálogo com esta pioneira da música.