A Escola de Música da UFRN apresenta dois concertos com músicos chineses

Nesta sexta-feira e sábado, a Escola de Música da UFRN apresentará dois concertos especiais com o violinista Song Qiang e o violoncelista Zhang Yunxin, professores do Conservatório de Música de Tianjin. 
 
Na sexta-feira, será um recital duplo: a primeira metade será dedicada à música chinesa, em comemoração ao tradicional Festival de Outono, que, neste ano, cai no dia 13 de setembro de acordo com o calendário lunar. Já a segunda parte do recital será dedicada ao bicentenário da compositora alemã Clara Schumann, nascida em 13 de setembro de 1819. Este concerto contará com a participação do clarinetista Joabe Oliveira e dos professores da EMUFRN Durval Cesetti e Nan Qi, ao piano. O recital começa às 19h, com entrada franca.
 
No sábado, a celebração do bicentenário de Clara Schumann continua com um concerto da Filarmônica UFRN, dirigida pelo maestro convidado Guilherme Bernstein, professor da UNIRIO. O pianista Durval Cesetti será o solista do "Konzertsatz em fá menor" de Clara Schumann, peça que tem sua primeira audição no Brasil. Em seguida, Song Qiang e Zhang Yunxin interpretam o "Concerto Duplo" de Johannes Brahms, compositor que foi amigo íntimo de Clara Schumann por muitas décadas. O concerto da Filarmônica UFRN tem duas sessões, às 18h e às 20h, com ingressos sendo distribuídos a partir de quinta-feira de manhã na Escola de Música da UFRN. 
 
 
 
BIOGRAFIAS  
 
SONG QIANG (violino)

Nascido em Tianjin em 1980, Song Qiang iniciou seus estudos de violino aos quatro anos, tendo aos sete anos começado a ter aulas com Liu Zili, renomado professor do Conservatório de Música de Tianjin. Na Alemanha, concluiu seu mestrado na “Hochschule für Musik Hanns Eisler Berlin”, estudando sob a tutela de Johannes Kittel e realizou seu doutorado na “Hochschule für Musik und Theatre Rostok”, com o professor Hanns Eisler, que considerou-o um dos mais promissores violinistas de sua geração. Ganhou o 1o prêmio e um prêmio especial pela melhor interpretação de obra virtuosística no “Internationaler Königin Sophie Charlotte Wettbewerb für Violine” em 2004 e, em 2007, o 2o prêmio no “Concorso Violinistico Internazionale Andréa Postacchini”. Realizou recitais em diversos países europeus e apresentou-se com orquestras como a RundfunkSinfonieorchester Berlin, a Brandenburger Symphoniker e a Berliner Symphoniker. Em 2007, apresentou-se com a Rundfunk-Sinfonieorchester Berlin em concerto no Grande Salão do Povo de Pequim. Em 2008, retornou à China em definitivo e tornou-se professor do Conservatório de Música de Tianjin. Desde então, realiza frequentemente recitais e concertos por todo o país, tendo apresentado-se com importantes orquestras chinesas e oferecido masterclasses em algumas das mais importantes instituições de ensino. Song Qiang dedica-se com frequência à música de câmara, como membro do Quarteto de Cordas Tianjin e do Trio do Conservatório de Música de Tianjin; com este último, recebeu 3o prêmio em concurso promovido pelo Conservatório de Música da São Petesburgo. Apresentou-se também recentemente no IX Festival Internacional de Composição da Tailândia e na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (Brasil).  

ZHANG YUNXIN (violoncelo)

Secretário da Associação de Violoncelo da China e chefe da cadeira de violoncelo e contrabaixo do Conservatório de Música de Tianjin, Zhang Yunxin obteve seu mestrado em 2002 e seu doutorado em 2005 no Hochschule für Musik Würzburg (Alemanha). Participou de masterclasses com renomados cellistas como Yo-Yo Ma, Maria Kliegel e Gustav Rivinius. Em 2004, realizou recitais no Canadá e gravou a sonata de Dohnanyi para difusão pela rádio Bayerischer Rundfunk, com o jornal “Mainz Post” escrevendo que “Zhang Yunxin possui uma bela e calorosa sonoridade e habilidades superhumanas”. Tocou por vários anos na Würzburg Philharmonic Orchestra, e na Würzburg city Orchestra, realizando turnês por diversos países europeus. Em 2008, seu quinteto de cordas recebeu o 1o prêmio do Concurso Internacional de Música de Câmara Gnessin (Moscou, Rússia). Com o Quarteto de Cordas de Tianjin, formado em 2009, tem se apresentado por toda a China, com concertos em Pequim, Xangai, Shanxi, Xiamen e diversas outras cidades. Em 2012, recebeu bolsa do governo chinês para retornar a Alemanha por um ano como pesquisador visitante.  
 
NAN QI (piano)
 
Nan Qi concluiu seu PhD em Educação Musical pela University of Western Ontario (Canadá), é mestre pela McGill University (Canadá) e graduada pelo Tianjin Conservatory of Music (China). Como pianista, estudou com as renomadas pianistas Li Hongmei e Marina Mdivani, tendo apresentado-se em diversas salas no Brasil, Canadá e China. Recentemente, realizou recitais no Conservatório Carlos Gomes e na UNICAMP (Campinas), EMESP Tom Jobim (São Paulo), Casa Thomas Jefferson (Brasília) e nas cidades de Wroclaw e Wojnowice, na Polônia. Também apresenta-se como parte do Duo Cesetti-Qi, especializado em obras de piano a 4 mãos de vários países. Em 1999, recebeu o 2o prêmio do importante Concurso Nacional para Alunos de Educação Musical promovido pelo governo chinês. Tem apresentado seu trabalho de pesquisa em inúmeras conferências, como o 6th International Symposium on the Sociology of Music Education (Irlanda), o 7th Asia-Pacific Symposium on Music Education Research (China) e a 31st ISME World Conference (Brasil), além de ter publicado em importantes periódicos, como o Action, Criticism & Theory for Music Education Journal e Per Musi. É regente do Coral Infantil da UFRN e atua na pedagogia do piano há mais de duas décadas.

DURVAL CESETTI (piano)

Descrito como “um pianista de rara musicalidade” pelo crítico Claude Gingras (La Presse, Montreal), Durval Cesetti completou seu doutorado, mestrado e bacharelado pela McGill University (Canadá). Apresentou-se como solista com orquestras como a Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional Cláudio Santoro, a Orquestra Sinfônica de Goiânia e a Orquestra Sinfônica do Rio Grande do Norte, sob a regência dos maestros André Muniz, Linus Lerner, Elena Herrera (Cuba), Kirk Trevor (Inglaterra), Juan Paulo Gómez (Espanha) e Jean-Michaël Lavoie (Canadá). Como camerista, colabora frequentemente com diversos músicos de renome internacional e tem publicado seus artigos em periódicos como The Musical Times e Latin American Music Review.

GUILHERME BERNSTEIN (maestro)

O carioca Guilherme Bernstein é professor de regência e prática de orquestra da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro - UNIRIO. Tem atuado à frente de orquestras como Sinfônica Nacional – UFF, Orquestra Sinfônica Brasileira, Orquestras Sinfônicas de Porto Alegre, Goiânia e Recife, Orq. Experimental de Repertório - SP, Orq. Rimsky-Korsakov de São Petersburgo, solistas da Filarmônica de Israel, entre várias outras, além da própria Orquestra da UNIRIO, com a qual se apresenta regularmente no Theatro Municipal do Rio de Janeiro e na Sala Cecília Meireles, entre outros espaços musicais no Rio de Janeiro. Foi Maestro Residente da Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal – RJ e por vários anos Diretor Musical da Orquestra Sinfônica de Barra Mansa, conjunto de ponta do projeto “Música nas Escolas de Barra Mansa” que ajudou a formar e onde sua atuação foi fundamental para elevar o grupo à posição de destaque que hoje desfruta na cena musical brasileira. Composições suas como a Serenata para Cordas e o Concerto para Piano n.1, ambas publicadas pela Academia Brasileira de Música, têm sido apresentadas em várias cidades do Brasil, Europa e EUA e sua ópera de câmara O Caixeiro da Taverna já ganhou duas produções, ambas com excelente resposta popular. Foi ainda premiado pela trilha sonora do filme O Outro Lado da Rua e publicou o livro “Sobre Poética e Forma em Villa-Lobos - Primitivismo e Estrutura nos Choros Orquestrais”. Guilherme Bernstein completou seus estudos básicos, bacharelado e mestrado na Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), pós-graduou-se em regência orquestral pela Hartt School of Music, EUA, onde se aperfeiçoou com Harold Farberman, e é Doutor em Música pela UNIRIO.
 
Saiba mais sobre Clara Schumann:
 
 “Gostaria ser capaz de escrever tão docemente como eu te amo e contar todas as coisas boas que desejo para ti”. “Não posso fazer nada exceto pensar em ti… O que fez comigo? Não consegue remover o feitiço que colocou sobre mim?”


Estes são alguns excertos das cartas trocadas entre Johannes Brahms e Clara Schumann, de uma relação de amor mútuo que provavelmente permaneceu platônica, tendo sido muito discutida e dissecada por acadêmicos e historiadores desde então.

Clara Wieck foi uma menina-prodígio, tendo aulas com seu pai, um renomado professor, e tornando-se rapidamente uma das melhores pianistas da Europa no século XIX. Ela conheceu Robert Schumann aos oito anos de idade, quando este tinha 17 anos e era um dos alunos de seu pai. Após alguns anos, a amizade entre eles transformou-se em amor e eles se casariam à revelia do seu pai, que ameaçou Robert física e legalmente caso ele prosseguisse com seu interesse. Eles casaram-se mesmo assim e Robert tornou-se gradualmente um dos compositores mais famosos da época, além de um importante crítico musical.

Muitos jovens compositores procuravam-no para conselhos e aulas; entre eles, um dia apareceu à sua porta um jovem músico que muito impressionaria tanto a Robert quanto a Clara: Johannes Brahms. Desta forma, nasceria o triângulo amoroso mais famoso da história da música clássica. Robert tinha na época 44 anos; Clara, 35; Johannes, 20.

Johannes era devotamente dedicado tanto a Robert como a Clara. A amizade e admiração entre eles era sólida e recíproca. Porém, Robert sofria de severos problemas mentais e, no ano seguinte, tentou o suicídio, jogando-se no Rio Reno. Após este episódio, ele foi internado em um asilo para tentar lidar com sua depressão e alucinações, no qual Johannes foi visitá-lo diversas vezes, além de ter muito ajudado Clara durante este período turbulento. Robert faleceria dois anos depois no asilo; pesquisadores defendem diversas teses sobre sua condição médica, desde intoxicação por mercúrio a algum tipo de tumor cerebral (cuja presença parece ter sido indicada por uma autópsia), os quais poderiam ter agravado os sintomas de esquizofrenia ou transtorno bipolar que ele já tinha há décadas.

Após a morte de Robert, alguns historiadores acreditam que Johannes fez uma proposta de casamento para Clara durante uma viagem de ambos à Suíça, mas essa proposta foi rejeitada por ela, que temia desonrar o nome de Robert. Todavia, ambos permaneceriam amigos íntimos para o resto de suas vidas, como demonstrado em sua correspondência; Johannes jamais casou-se e sempre manteve Clara como seu ideal feminino. Ela viria a falecer em maio de 1896 e Johannes seguiu-a apenas 10 meses depois.

 
Clara havia escrito uma vez que a “arte da criação era algo insuperável, pois você esquece-se de si mesma por horas a fio, vivendo em um mundo sonoro”. Porém, parcialmente devido ao machismo da época, ela gradualmente deixou a composição de lado, permanecendo porém como uma das pianistas mais famosas de sua época, sendo uma das forças por trás da criação e divulgação das obras de Robert e de Johannes. O Konzertsatz foi uma obra que ela escreveu em 1847 como presente de aniversário a Robert. Este movimento seria o começo de um segundo Concerto para Piano, tendo ela escrito seu primeiro e único aos 14 anos de idade. O Konzertsatz foi talvez uma tentativa de Clara retomar suas atividades como compositora; porém, não parece que ela tenha completado sequer a orquestração deste movimento. Em 1986, o pianista belga Jozeph de Beenhouwer completou a orquestração desta peça, na qual o compositor polonês Jakub Kowalewski baseou-se para criar a versão para piano e orquestra de cordas que a Filarmônica UFRN apresenta neste programa.

O Concerto Duplo de Brahms foi composto exatamente 40 anos depois, no verão de 1887, tendo sido sua última composição orquestral. A obra foi escrita para dois intérpretes que foram muito próximos de Brahms: o violoncelista Robert Hausmann e o violinista Joseph Joachim. Brahms tinha porém se distanciado deste último após uma desavença causada pelo seu divórcio (no qual Brahms tomara partido da esposa de Joachim). Clara chamou esta peça de um “Versöhnungeswerk” – um trabalho de reconciliação: na partitura que deu para Joachim, Brahms escreveu que ela “era para ele para quem a obra foi escrita”, tendo também incorporado na música um tema favorito de Joachim, extraído de um concerto para violino de Viotti. O Concerto Duplo é uma peça que evita virtuosismos vazios, demonstrando uma harmonia perfeita entre ambos instrumentos solistas e a orquestra, criando um “matrimônio musical” no qual “nenhum deles domina o outro”, de acordo com o crítico Irving Kolodin.